Quando escrevi o Nebihísmo e os Mashiáh[1] tinha já planeado ligar o movimento messiânico de Bandarra ao movimento Sabbataísta levantando, desta forma, o enigma messiânico na história Judaico-Cristã e que se desenvolve pelos séculos XVI e XVII. Este fenómeno, que se expande por dois séculos sem qualquer tipo de interrupção, tem como base a cultura judaica e a sua explosão no sentido do messias místico mostra bem o estado do descontentamento Judaico e Cristão da época exibindo, por isso, o modo como judeus e católicos se juntaram unidos na mesma esperança à volta do vidente Bandarra, que anunciava D. Sebastião como Messias, tal como judeus e cristãos ombro a ombro depositaram a sua fé no auto-proclamado messias místico Sabbataï Tzevi na grande esperança da unificação Judaico-Cristã.

Observaremos que dentro da cultura judaica é a Cabbala a viga mestra destes dois movimentos tal como a grande impulsionadora, Cabbala essa que permitiu uma fantástica estrutura de argumentação e de demonstração e se alguma lacuna pudesse persistir a aproximação do ano de 1666 trataria de a fazer desvanecer. Os cristãos ainda com a noção de um ano 1000 ultrapassado por milagre, como diziam na época, enfrentavam agora com os judeus o temeroso número da besta, 666. O que surgira apenas em Portugal e parecia ter cessado com a morte do Rei de Portugal D. Sebastião avolumava-se agora por todo o norte da Europa ensombrando já todo este continente ao ponto de pôr os muçulmanos e os Turcos na expectativa dos acontecimentos divinos, ou somente naturais, que poderiam dessas visões advir.

Este documento, cuja súmula vos apresento e que terei que repartir em várias partes dada a vastidão do material, assenta basicamente, na obra do grande investigador Gershom Scholem Sabbataï Tzevi – Le Messie Mystique (Collection «Les dix Paroles», Editions Verdier, 11220 – Lagrasse) adoptando eu como apoio para a síntese a obra de David Gonzalo Maeso (com o Nihil Obstat do Censor do Vaticano) Manual de Historia de la Literatura Hebrea (Editorial Gredos, Madrid). Outros documentos que também foram por mim utilizados surgirão ao longo do texto nas notas de rodapé sempre que alguma citação seja directamente copiada dessa fonte para esta página. Não obstante, é importante realçar aqui os documentos clássicos sempre presentes neste meu documento e que, espero, vos possam conceder um pouco a forma de pensar hebraica-judaica e os sistemas de raciocínio estabelecidos pela tradição deste povo: Tanakh[2], Talmude[3], Zohar[4], Pirkê de Rabby Eliêzér[5] e o apócrifo judaico muito contestado pelo Rabinato Sêfér Bahir[6].

 

 

 

A Cabbala, do hebraico Kybbél e que significa recebeu tal como We’Omessará significa e transmitiu, vem da mensagem esotérica do tempo de Moisés que Deus lhe concedeu. Desta forma, afirma a tradição, Moisés recebeu (Kybbél) de Deus aquilo que correctamente transmitiu (Omessará) aos anciãos do povo conforme as suas tribos e, muito em especial, à tribo Levítica que é a tribo sacerdotal. Portanto Kybbél recebeu, We conjunção coordenada copulativa e, Omessará transmitiu. Ora é no receber e transmitir que assenta uma das várias fundamentais actividades do imenso material que, muito posteriormente foi redigido e compilado e, se vem a denominar Cabbala ou Cabbaláh sucedendo isto só no século III e.c. (era comum ou depois de Cristo (d.C.)), ou seja, cerca de dois mil trezentos anos depois de Deus ter entregue as leis a Moisés.

Por serem muito importantes os vários aspectos e os múltiplos documentos que compõem a Cabbala e porque tomo em consideração a variedade dos leitores que possam aceder a esta página da web é que se tornou implícito, a meu ver, que por esta matéria me delongasse o necessário a fim de esclarecer e eliminar ideias erróneas contidas em muitos livros publicados e cuja qualidade se não é um redondo zero, deixa muito a desejar e isto independentemente do preço que lhes seja aplicado. Ora, é a Cabbala que a partir do início do século XVI vai provocar uma enorme instabilidade e consequente mau estar no seio da comunidade judaica sendo de tal ordem essa situação que a depressão da comunidade ainda se fazia muito bem sentir em pleno século XIX. Por tudo isto que acabo de apresentar é notória a importância do entendimento de determinados aspectos terminológicos da Cabbala, bibliografia afim e de como ela se foi desenvolvendo, uma vez que este campo do conhecimento judaico nunca será encerrado encontrando-se, portanto, em sistemático desenvolvimento.

Como muitos outros povos, os hebreus mantiveram, até onde puderam, os seus conhecimentos baixo tradição oral porque se acreditava e mesmo sabia-se, pelo menos por trágicos acontecimentos que se deram entre outros povos, que tudo o que fosse escrito tendia a perder-se perigando com isto a identificação e respectiva desidentificação, a desintegração do conceito de povo e, finalmente, a dispersão com a quase absoluta perda dos conhecimentos alcançados. Este conceito de perda de identidade e de dispersão social é considerado universal e tem muita razão de ser uma vez que a tradição oral assenta em tudo na capacidade dos mestres do povo desenvolverem métodos cada vez mais acurados de mnemotécnica evoluindo estes na proporção em que as revelações e os conhecimentos aumentam. Desta forma, mesmo que um povo seja disperso pela superfície da Terra por qualquer agente natural ou bélico, a capacidade de memorização mantém não só os dados presentes como, segundo o que se acredita, impele como que num acto telepático à reunião e reunificação dos sobreviventes; donde, se o material do conhecimento for escrito a capacidade e a metodologia mnemotécnica diminuem a tal ponto que torna incapaz a reunificação das comunidades. Hoje o povo judeu tem uma amplíssima documentação escrita mas possui, paralelamente, a memorização de muito dessa matérias tal como de muito mais informação que tão cedo não será registada e daí porque o Talmude afirma que há uma Thoráh escrita e uma Thoráh muito superior em transmissão oral.

A Thoráh escrita é a parte da Bíblia que corresponde aos cinco primeiros livros da Bíblia e a que os cristãos conhecem sob o nome grego de Pentateuco sob os nomes, também gregos, de Génesis, em hebraico Brêixith, Êxodo ou Shemóth, Levítico ou Vayqeráh, Números ou Bamidêbár e Deuteronómio ou Dêvarym. É sobre estes cinco Livros mais os equivalentes, mas só existentes na transmissão oral, que todos os conhecimentos judaicos assentam e os métodos mnemotécnicos se desenvolvem e ampliam. Cada livro da Thoráh subdivide-se em porções de textos, cada uma delas podendo coincidir ou não com um ou mais versículos que a Bíblia cristã exibe mas que não foram criados pelos judeus – tal como também não os capítulos – se bem que os tomem em consideração por acharem ser uns sistema tão inteligente quão prático. Quanto aos raciocínios, regras de comportamento, regras alimentares, de higiene, de estratégia e de muito mais, condensam-se na obra denominada de Talmude mas, claro, também esta formada por muitos documentos e sempre em crescimento, a qual é apenas o núcleo de uma enorme tradição oral envolvente e esta, como é óbvio, só se encontra registada nas memórias dos membros do povo e centralizada nos cérebros dos Anciãos e dos Rabbym (Rav no plural formado pelo sufixo ym, se bem que generalizado por Rabby sendo que a terminação y significa meu donde Rabby significar meu mestre).

Porém e para este meu documento, o mais importante é que é também a Thoráh escrita conjuntamente e acima de tudo, como não poderia deixar de ser, com a Thoráh oral a pedra de quina ou de toque, o alicerce, a viga mestra e o atravancamento da Cabbala, da sua consistência e orientação investigativa. Também a Cabbala apesar de ser constituída por muitos documentos, possui uma enorme transmissão oral que tão cedo não será vertida para a escrita e que se desenvolve de dia para dia.

No século III e.c. surge o Sêfër Yêtziráh (sêfër significa livro) ‘que marca a transição entre o misticismo do Oriente e o do Ocidente; a partir do século seguinte as actividades cabalísticas expandem-se pela Itália como por outros países europeus oferecendo também na Espanha alguma manifestação, ainda que parcamente, até ao século XII. No século XIII surge um movimento cabalístico de grande alcance, que possui uma importantíssima representação no judaísmo espanhol. Na segunda metade desse século aparece em Castela, sob uma forma misteriosa, o livro mais representativo da Cabbala a par com o misticismo medieval, o Zohar (que significa Esplendor). ‘

Quem foi o autor do Zohar não se sabia mas posteriormente, por volta de 1970, ficou cimentada a ideia de que esta obra se compõe de um conjunto de documentos manuscritos hebraicos como se pode constatar na Biblioteca Nacional de Paris. Esta compilação abarca um conjunto de livros que compreendem:

 

1.     Comentários sobre os cinco livros da Thoráh;

2.     Sectores dos Midrashym, termo hebraico que deriva da raiz estudar, procurar e investigar. Os Midrashym assentam em histórias elaboradas sobre incidentes descritos na Bíblia com o fito de deduzir um princípio da lei judaica ou obter um princípio ou uma lição moral.

3.     Referências frequentes aos Salmos;

4.     Citações renovadas do Cântico dos Cânticos tal como dos profetas;

5.     Capítulos esparsos dos comentários da Thoráh.

 

Não contendo uma exposição sistemática das doutrinas cabalísticas, o Zohar pela sua análise mística da Thoráh a par com os demais livros da Bíblia, acima expostos, tornou-se a fonte principal dos tratados cabalísticos posteriores porque representa o ponto de convergência e de arranque de todo o misticismo judaico. Alcançou o status equivalente ao de uma Bíblia para a Cabbala, conseguindo em autoridade igualar-se ao Talmude no terreno jurídico. Por toda a Europa formaram-se grupos de adeptos do misticismo, à sombra do Zohar, tendo sido fundada no século II e.c. a sede principal na cidade de Safed ao norte da Galileia (Israel). Apesar da grande oposição e, por fim, tristeza dos zoaristas partes do Zohar foram impressas no século XVI. Uma pequena quantidade, é certo, mas o resultado foi de um grande dano para as comunidades judaicas vindo a sofrer também algumas comunidades cristãs... o regozijo, o regozijo foi para os turcos em particular e para o muçulmanismo em geral. O judaísmo sentiu na pele a comprovação de que verter para a escrita algo da tradição oral sem serem cuidadosamente analisados os prós e os contras pode tornar-se uma arma acutilante contra a manutenção da coesão do povo e, desta feita, passou a observar com redobrados cuidados as porções de tradição oral que necessitam de ser publicadas e, entre estas, quais as que podem vir a lume quedando todas as outras cuidadosamente protegidas.

Com o estabelecimento do Santo Ofício por parte da Igreja Católica –, inquisição que, mais tarde, também os luteranos adoptaram – é a Cabbala uma das primeiras a ser posta em causa. Em Portugal e para exemplo, em 1724 é editada a obra póstuma de D. Francisco Manuel de Melo (1608 – 1666) Tratado da Ciência da Cabbala[7] obra essa que contém os argumentos do autor perante o Santo Ofício a favor de tão sagrada ciência. Conforme consta nas Notas de Leitura deste pequeno grande livro: “Francisco Manuel de Melo (1608 – 1666) foi educado pelos jesuítas do Colégio de Santo Antão. Viu muito mundo, sobretudo o seu, e nunca se deixou levar, literariamente, por golpes de audácia. No, entanto tem um dom não muito comum no século – o humor. É um raro prazer vê-lo, hoje, louvar e exortar neste termos o responsável pelo Santo ofício: «Mas porque o cuidado e diligência do Tribunal a que toca a guarda da nossa Santa Fé é tão grande e nele tem V. Senhoria tamanha parte que, por letras, experiência e qualidades, é um dos seus principais ministros, parece que qualquer outro advertimento ou lembrança seria de sobejo, pois, como vê o mundo, tanto V. Senhoria como os mais (à maneira daquela serpente prudentíssima que, com desvelado silêncio, guarda o fabuloso horto das maçãs de ouro) velam de continuo com religiosa quietação pomo e formosura deste importante jardim da Religião Católica, pagando-lhe Deus de tal sorte esse cuidado... » Talvez, nalgumas linhas, a subtileza do humor caminhe na corda bamba da louvaminha, mas a serpente prudentíssima, os pomos de ouro e o pagamento são imagens suficientemente vivas para despertar na imaginação contemporânea aquilo que supõem de hostilidade, embora familiar e bem humorada por obra e graça do estilo e da coerência do Autor.”

Desde o início da Inquisição que a Cabbala estava proibida e paralelizada aos livros de bruxaria e quando D. Francisco Manuel de Melo actuou em defesa da Cabbala fê-lo usando como móbil a prisão de um estrangeiro nas celas do santo ofício e achando–me por aqueles dias numa conversação de homens sábios, como a prática de muitos seja brúxula, que jamais se afirme em parte determinada, entre outras matérias de ciência se veio ali falar, por causa daquele sucesso, da Ciência Cabala, cujo exercício alguns davam por origem dele, tendo estes tais para si era a Cabala uma das artes proibidas por demoníaca;...” Desta forma D. Francisco dá início à sua tese de defesa da Cabbala chegando ao ponto de deturpar termos e contextos perante o tribunal do santo ofício, aproveitando-se do desconhecimento dos seu membros dos idiomas Aramaico e Hebraico, com o fito de ilibar a ciência da Cabbala. Deturpou e o que não deturpou omitiu os significados dos termoso da Cabbala usando o modo de ser como o povo português imaginava o povo judaico e se omitiu o significado do termo Brêixith e a que chamou de Cabala Brêixith, deturpou para defesa dos judeus a Cabala Mercana alegando ser este o verdadeiro termo pois que alguns tradutores, que verteram os livros desta obra do Hebraico para o latim, confundiram a letra hebraica N n com a V w e por isso alguns a chamavam erroneamente de Mercavá. Ora Mercavá significa Carro de Deus conforme aparece na Bíblia no livro Profético Apocalíptico de Ezequiel no capítulo 1 e neste capítulo o profeta Ezequiel descreve metodicamente o Veículo em que Deus se deslocou dos Céus à Terra na primeira visão que lhe concedeu. Os livros de Ezequiel, Daniel como de todos os profetas maiores e menores da compilação bíblica a que os cristãos chamam de Antigo Testamento, eram profundamente analisados pelos cabalistas a fim de descortinarem o futuro e daí porque uma boa parte da Cabbala era considerada divinatória... a outra parte era considerada manuais de bruxaria. D. Francisco Manuel de Melo ao deturpar para Mercana e sendo considerada a Cabbala pelos judeus um conjunto de documentos jurídicos e morais, já abordaria o modo como eles deveriam conduzir os seus negócios e mercâncias, actividade central e praticamente rica da vida dos judeus como se pensava naquela época.

Nesta altura (século XVI) era do domínio, mais ou menos, público que a Cabbala se dividia segundo os versículos 20 e 21 do capítulo II do Livro bíblico Provérbios (Prov. 22 : 20, 21 sistema que passarei a adoptar a partir daqui e que colocarei em extenso nas notas de rodapé). Afirma o texto bíblico: “Porventura não te escrevi excelentes coisas acerca de todo o conselho e conhecimento; para te fazer saber a certeza das palavras de verdade...” Mas do ponto de vista judaico a tríade Conselho, Conhecimento e Saber, reduzia-se a duas unidades a saber: Brêixith e Mercavá em que a Brêixith equivalia à física e a Mercavá à metafísica e por sua vez a Mercavá se subdividia em Sephirot prática e Shêmót especulativa. Estas divisões tornadas públicas estavam longe de serem verdadeiras; agora, o que mais se aproximava da realidade era o duplo aspecto: aritmética e geometria. As verdadeiras divisões da Cabbala assentam nas tais porções de texto da Thoráh que no início deste documento abordei e que são as porções (parshat) que são lidas no Sábado (Shabath) na Sinagoga permitindo a leitura e estudo total da Thoráh num ano judaico não obstante, ainda há outras divisões adicionais.

As obras cabalísticas disponíveis no século XVI eram Ôr Yaqar (Luz Preciosa ou Luz Querida), ‘Êlima Rabbata (O Grande Elim), Shiur Qômáh (Lição Superior), Ôr Nê’êráv (Luz Mesclada ou Luz do Entardecer), Tamar Dêbôrá (Palmeira de Débora), Sefer Gêrussím (Livro dos Proscritos ou Livro dos Exilados) e exposições sobre os dez sêfiróth do Sêfêr YeTsiráh; mas no meio destes todos quem regia era o Zohar e a quem parecer poucos os documentos escritos desde o século III ao século XVI imagine só que vulgarmente esses livros possuem cada um, em quase média, 12 secções em setenta capítulos de raciocínios e revelações de todos os campos do conhecimento e do esoterismo.

Chegámos agora ao ponto crucial da Cabbala que vai contribuir, como já acima foquei, para a grande reviravolta e a grande depressão que se estenderá até ao século XIX e por ele continuará. Em 1534 nasce o grande cabalista o Rabby Ishaq (Izaque) De Luria em Jerusalém; como a família era oriunda da Europa Central chamavam-no de Ashkênázy porém os seus discípulos sêfarditas (judeus de Israel e da bacia mediterrânica e principalmente de Portugal) chamavam-no de ha-Ary (o Leão) como prova da grande veneração que tinham por ele e Ashkênázy vai a par com Adônênu (Senhor nosso) o que reafirma a honra que lhe concediam os judeus em geral pela sua doutrina e pela sua vida de asceta. Ishaq De Luria estudou em Jerusalém dirigindo-se depois para o Egipto e aí permanecendo na sua casa; regressou, posteriormente, para Safed aonde, dado os seus feitos potentosos, afirmou-se ser ele o Messias da tribo de José e suposto precursor do Messias da casa de David pela sua vida piedosa, pelos milagres que se afirmam que ele fez, e por fim, pelas afirmações do seu discípulo Hhaym[8] Vital o qual asseverava, entre os muitos atributos místicos do seu mestre, que Luria veio a este mundo com a missão exclusiva de lhe revelar os arcanos da Cabbala tornando-se Hhaym Vital o grande apóstolo da nova doutrina.

Os contornos messiânicos da doutrina são notórios só que, nesta altura, esses contornos já possuíam um tão forte volume de factos ao ponto de se tornar irreversível este processo até porque e como se não bastasse, Luria desde pequenino afirmava estar em contacto com o profeta Elias obedecendo, por isto, a um chamamento divino. Daí o ter assumido uma vida de eremita e antes da sua morte (1572) já circulavam biografias deste grande santo do judaísmo.

Se Bandarra nasceu em 1500 é pouco provável ter tido qualquer acesso às doutrinas de Luria que as transmitia oralmente sendo o seu discípulo Hhaym Vital quem posteriormente as escreveu com toda a fidelidade. No entanto, quando Bandarra já dominava a Bíblia de cor e salteado teve acesso a uma boa quantidade de documentos da Cabbala e isso é notório pelo estilo da poética que usa para transmitir as suas visões e os seus oráculos e quem quiser observá-los notará que tanto faz lê-los de cima para baixo como ao contrário que o sentido não só não se altera como se amplia e, por fim, com mais cuidado observar-se-à, através de escritos dos que o rodeavam, que muitas vezes aquilo que ele queria escrever não era o que saía mas totalmente o oposto e, desta feita, desalentava muitas vezes os seus discípulos. Porém a humildade de Bandarra não lhe permitiu sequer que se auto denominasse de profeta apesar de ser conhecido como tal; na realidade afirmou o messias encoberto ou o Encoberto mas atribuir tal a D. Sebastião não foi obra sua.

Com personalidade completamente oposta e numa época muito posterior à de Bandarra, é Sabbataï Tzevi que, dentro dos desenvolvimentos cabalísticos de Luria, se auto-proclama o messias da casa de David e foi desta forma que a mecha do barril de pólvora se acendeu.

 

 

 

 

 

«Eu espero poder demonstrar neste livro que são precisamente as fontes que os historiadores tiveram a tendência a desprezar que são susceptíveis de nos conceder uma contribuição essencial à nossa percepção deste período.»

 

(Gershom Scholem)

 

Sabbataï Tzevi nasce em Semirna em Agosto de 1628 o que corresponde ao ano judaico de 5386, no mesmo dia em que o povo judeu celebra a destruição do primeiro e do segundo Templo de Jerusalém precisamente no dia nove do mês de Av. Tal como afirmei no texto Nebihísmo e os Mashiáh era costume dar às crianças nascidas no sábado o nome de Sábado sob a forma de Sebastus (Sebastião, Sebastienne) ou Sabbataï e confirma-se que o dia da celebração da destruição dos Templos caiu nesse ano a um sábado. Segundo uma tradição rabínica muito antiga seria no dia da celebração da destruição do segundo templo que nasceria o messias. Isto é de per si um factor muito importante que pode de sobremodo influenciar não só toda a família dessa criança, como a própria e mesmo toda uma comunidade fechada como a comunidade judaica o era forçosamente dadas as perseguições caso ultrapassassem as duras leis das nações em que se encontravam e a que estavam sujeitos... temos no Caso Dreyfus um bom exemplo político, militar e social disso na transição do século XIX para o século XX.

Já no século XVI e contemporâneo do Bandarra Davi Reubeni tentou a sua aventura messiânica recheada, como no caso do Encoberto, de histórias sobre as dez tribos perdidas provenientes de uma fonte muito anterior e que anunciava o nascimento do filho de David; portanto e por aqui, começamos a observar que o caso de Bandarra não foi de forma alguma isolado mesmo no contexto das crenças das tribos focadas, mas que vem na continuidade da sublevação messiânica de Bar Kokhba contra Roma em 132 – 135 e.c. Porém, o caso destes e de outros ditos messias foram sempre limitados a uma região e no máximo a uma nação contrariamente ao efusivo messianismo de Sabbataï que abrangeu uma grande parte da Europa e daí a importância da análise deste fenoménico processo que cada vez mais, hoje, aflige as várias religiões em geral e a Cristã em particular.

Era e é absolutamente comum que um jovem inicie os seus estudos na Sinagoga[9] por volta dos três ou quatro anos, mas assume-se e regista-se nos anais sinagogais o início desta actividade como sendo aos cinco anos tendo acontecido o mesmo a Sabbataï Tzevi. Segundo os dados que se possuem, os seis primeiros anos da educação de Sabbataï desenrolaram-se debaixo da autoridade e da severidade dum mestre que lhe ensinou Os Elementos da Piedade e as vias do serviço divino. Ele continuou, seguidamente, os seus estudos sob a direcção do mais ilustre Rabby de Esmirna (Grécia) Yosséf Eskafa, o autor da obra Rosh Yossef (O Cabeça da casa De José[10]), talmudista respeitado e de plena autoridade; donde, podemos concluir com segurança que, Sabbataï recebeu uma perfeita educação religiosa e talmúdica ao ponto de possuir todas as condições para assimilar e interiorizar a totalidade das fontes da cultura rabínica, ao ponto de ninguém poder pôr em causa a sua erudição talmúdica. Thomas Coenen, pastor da comunidade protestante holandesa de Esmirna, afirmou (sem qualquer dúvida sobre a fé da família de Sabbataï Tzevi) que ele recebeu o título de Hhakham[11] – epíteto honorífico com que os Sêfarditas se reportam aos seus Rabbym[12] – ainda adolescente significando isto, talvez, que Sabbataï foi ordenado Rabby por Yossef Eskafa ou pelos membros do seu tribunal. Segundo o testemunho de Leyb ben Ozer, o notário da comunidade Ashkênázy de Amesterdão, o nosso jovem Rabby foi ordenado Hhakham aos dezoito anos de idade e é um facto que os seus adversários o podiam tratar de pretensioso ou de louco mas de ignorante nunca. O modo como ele foi reconhecido pelos grandes pensadores e investigadores judaicos da época não pode ser posto em causa; definitivamente Sabbataï era uma pessoa muito especial e de uma inteligência acutilante, controverso – ele adorava provocar discussões sobre determinados pontos da lei e da halakhá – é certo, mas brilhante.

Existem, ainda, duas outras fontes distintas no que respeita à evolução da adolescência de Sabbataï. Coenen reporta que ele termina a yêshivá[13] com a idade de quinze anos depois de brilhantemente ter terminado os seus estudos passando a viver, logo em seguida, na abstinência e num estudo solitário. Nas cartas ao Yémen, nos primeiros tempos do movimento sabbataísta, encontra-se explicitamente afirmado que a partir do ano de 1642 (Sabbataï nasceu em 1626 logo teria os quinze anos afirmados por Coenen) «ele começa a dedicar-se à disciplina asceptica, renunciando a todos os prazeres porque eles ameaçam-no pecar e destitui-se de tudo o que é frívolo.» Ora o facto de se afirmar que Sabbataï estudava só não exclui, nem o pode, a necessidade de um guia muito experiente na matéria que o acompanhe no que concerne à vida ascética e, neste caso, terá sido o Rabby Isaac o seu primeiro mestre. Toda esta cronologia que apresento é confirmada no final da Visão de Abraham através de uma história extraordinária. «Quando Sabbataï tinha seis anos, uma chama apareceu-lhe num dos seus sonhos e causou-lhe uma queimadura no pénis; e os sonhos aterrorizavam-no mas ele não falava sobre nenhum. E os filhos da prostituição (os demónios) o abordavam a fim de o fazerem tropeçar e o intrujavam mas ele não os escutava. Eles eram os filhos de Na’ama, os flagelos dos humanos, que o perseguia constantemente afim de o corromper.»

Tudo isto lhe aconteceu quando tinha seis anos e, realmente, por aqui é difícil de divisar as expressões das experiências emocionais e sexuais duma criança dessa idade mas, a partir de aqui e analisando os outros relatos sobre os sofrimentos dele, um problema mental começa a desenhar-se. Ele foi atormentado por pesadelos nos quais o carácter sexual é evidente ao ponto de vivamente nos apercebermos que Sabbataï possuía violentas tentações sexuais expressas através do imaginário tradicional, aquilo que na Cabbala é exposto como as actividades demoníacas e descrito por «filhos da prostituição» que são “os flagelos dos humanos» sendo esta última afirmação o termo técnico empregue no Zohar para designar os demónios nascidos da masturbação quando Na’ama – a rainha dos demónios –, seduz os homens através de visões lascivas. Esta terminologia é corrente em todos os escritos cabalísticos como em numerosos textos sobre moral; ora a sua significação dentro do contexto apocalíptico é evidente. Agora, um jovem nestas condições de desequilíbrio abraçar uma via ascética é realmente um erro muito crasso. Por outro lado, os seus estudos não pararam e, como é normal entre os judeus, ele só terá começado os estudos da Cabbala entre os dezoito e os vinte anos e isto porque é afirmado na Mishna Avot V, 24 «quando o homem atinja a metade da idade da compreensão». Ora, a idade da compreensão é aos quarenta anos segundo a tradição e a sua metade é vinte portanto, não era novidade nenhuma que Sabbataï tivesse começado nessa idade mas, do ponto de vista da inculcação dos seus terrores através das simbologias e das terminologias da Cabbala, já é significativo e mesmo esclarecedor do porque Sabbataï já ia no seu terceiro casamento e não conseguia ter relações sexuais com nenhuma delas.

A Interdição ou proibição do estudo da Cabbala depois dos quarenta anos nunca foi reconhecida pelos judeus Sêfarade e, por fim, mesmo durante o movimento sabbataísta foi vivamente condenada se bem que nunca tenha tido uma expressão prática real pois os vinte anos mais facilmente significariam a idade mínima do estudo da Cabbala do que a máxima e, quanto à dos quarenta anos como sendo a máxima está completamente fora do espírito de qualquer interpretação.

Um outro detalhe importante foi revelado pelo holandês Coenen e pelo amigo de Sabbataï, Moïse Pinheiro, enquanto permaneceram os dois em Esmirna. Segundo eles, Sabbataï já só estudava a Cabbala sem mestre ou orientador, nem mesmo um mentor e, ainda por cima, ausente de todos os companheiros de estudo. Segundo Leyb ben Ozer, Sabbataï «viveu na casa de seu pai durante todos esses anos, recluso e enfermo numa cama especial, dedicando-se totalmente aos seus estudos tendo sido este o modo de como ele se tornou rápida e extremamente versado nos ensinamentos da Cabbala.» Mas Leyb bem Ozer acrescenta sobre o jovem Sabbataï Tzevi «No que concerne à ciência da verdade (a Cabbala) ele (Sabbataï) não estudava nenhuma outra obra para além do Zohar e o livro de Qana. Cada vez que R. Moïse Pinheiro, que tinha estudado muito, levantava pontos de discussão para seguidamente responder, Sabbataï escarnecia e ria-se dos seus exercício de dialéctica... Sabbataï tinha aprendido tudo por ele próprio ao ponto de ser um entre os quatro que chegaram sozinhos ao conhecimento do seu Criador, conforme está dito no Midrash, a saber, Abraham, Ezequias, Job e o messias[14]. Ele também dizia que era rico (na sua doutrina do Mistério da Divindade) porque todos os dias tinha rezado com uma grande concentração (Kavaná) e todos os dias meditado sobre o sentido exacto das palavras, como qualquer convidado diante do seu Rei. Por vezes recuava de dizer determinadas coisas sobre o En-Sof, mas sem deixar de prosseguir no seu trabalho afincadamente afim de conhecer a verdade a qual lhe tem concedido grandes revelações. Nunca praticou qualquer das meditações (cabalísticas tradicionais) à excepção daquela que acima abordei. Mas R. Moïse Pinheiro, que estudava um dia com ele antes do Dia do Grande Perdão, não conseguia cessar as suas meditações (da escola lurianica às quais ele estava habituado até que o Demónio lhe introduziu pensamentos estranhos (isto é, impuros) no seu coração; sobre isto, ele disse num tom resoluto: ‘Sou eu maior que ele (Sabbataï)? Depois, o seu saber talmúdico é considerável, da mesma forma que a sua piedade (isto é, a sua vida de asceta) e a sua sabedoria (isto é, o seu saber cabalístico) e se ele não pratica as meditações porque é que eu o farei? ‘ Decidiu então não mais meditar, senão sob o modo já mencionado.»

Não podemos pôr em causa as afirmações de Pinheiro dada a sua reputação, ele foi sempre coerente nas suas descrições as quais tratou sistematicamente e com a máxima fidelidade ademais, os testemunhos de Pinheiro sobre Sabbataï são muito esclarecedoras. Nos anos de 1644 – 48, quando Sabbataï começa os seus estudos cabalísticos, a Cabbala lurianica era a predominante e praticamente todos os estudantes cabalistas permaneciam demoradamente nos escritos, manuscritos ou no seu material impresso, dos místicos de Safed. O espírito que soprava de Safed tocava rapidamente todo o público cabalista e o desejo essencial de todos aqueles que estudavam as doutrinas místicas era o de cada vez mais beber das fontes de sabedoria que fluía dos escritos dos sábios de Safed. Porém, este não era o caso de Sabbataï Tzevi. Não deslindamos nos testemunhos de Pinheiro como é que Sabbataï, alheando-se da Cabbala lurianica e dos escritos de Cordovero, ultrapassa todos os seus pares na compreensão de um drama tão poderoso e complexo que fundamenta a Cabbala lurianica. Pode ser que ele tenha tomado os estudos lurianicos e de Cordovero na segunda metade do século XVII em que Pinheiro estava completamente afastado dele, mas durante os primeiros anos tão decisivos para o seu desenvolvimento ele nunca lhes prestou qualquer atenção reduzindo-se as suas leituras aos cinco volumes do Zohar e aos dois tomos da Qana se bem que esta última obra seja de uma importância considerável.

O Sêfer Qana (Livro da Criação (ou) da Formação) é uma obra volumosa sobre o significado dos mandamentos, do mesmo tipo que o comentário cabalístico dos capítulos 1 a 6 de Génesis, conhecido sobe o nome de Sêfer Pelia e escrito pelo mesmo autor. Estas duas obras não estavam ainda impressas no tempo de Sabbataï e somente os Hhassidim[15], no final do século XVIII, ousaram publicar. Sabe-se que cópias manuscritas circulavam livremente e todo o estudante cabalista poderia ter-lhes acesso ao ponto de esses escritos terem exercido uma influência considerável mesmo que os cabalistas de Safed tivessem negado a sua autoridade e o seu valor.

Mas antes de prosseguir com a análise dos estudos de Sabbataï em particular e do desenvolvimento da Cabbala em geral, a fim de podermos entender a razão de ser do surgimento do movimento sabbataísta é importante analisarmos a origem e o desenvolvimento da doença de Sabbataï e isto, permitir-nos-à saber como é que ele pode ser tão abrangente, ao ponto de embrenhar toda uma Europa até ao clímax do grande desastre provocado pelo fim do movimento e a expulsão de Sabbataï da comunidade judaica por ter renegado a favor do muçulmanismo, ao qual se converteu, tendo recebido asilo com grande pompa e plenos direitos, impossível para um judeu nessa época, da parte da Turquia. É indiscutível a doença de Sabbataï; os seus contemporâneos tratavam-no por louco, lunático ou de idiota e, mesmo os seus discípulos reconheciam que a sua conduta, pelo menos depois da puberdade, justificava plenamente esses epítetos. Devemos ser muito reservados quanto a termos com esses e os aplicados a Sabbataï por um Rabby Yossef ha-Levi de Livorne quando ele escreveu a um dos seus adeptos que estava no Egipto dizendo que Sabbataï Tzevi «foi conhecido, durante a sua vida, como um idiota e um louco...», ou de outras afirmações similares que surgem constantemente nos documentos que Sasportas cita na sua obra Tsitsat Nobel Tzevi. Estes epítetos não são mais do que irritabilidade natural contra Sabbataï da parte daqueles que negavam a sua missão, mas não traduziam a sua personalidade intrínseca. Mesmo as teorias, da época, de fontes duvidosas e que muitos historiadores embarcaram nelas, afirmações como histeria patológica, paranóia, etc. não têm qualquer validade porque em nada podem assentar que faça prova; pelo contrário, basearam-se em obras secundárias e duvidosas as quais, numa análise simples, se acabam por contradizer.

Na medida em que os dados foram totalmente modificados com a descoberta de material original a saber, os registos dos membros do círculo imediato de Sabbataï, essas fontes, sim, convidam-nos a pensar com uma certeza quase absoluta que Sabbataï sofria de uma psicose maníaco-depressiva à qual se juntavam, provavelmente, certos elementos de paranóia. Trata-se duma perturbação, que se pode considerar doença, mental no termo e conhecimento psiquiátrico actual. Esta perturbação caracteriza-se por um tipo de comportamento mais ou menos variável em que o doente exibe, segundo Kraepelin, acessos mórbidos, quer do tipo de excitação maníaca, quer do tipo de depressão melancólica, acessos estes que sobrevêm de forma periódica, com a tendência à repetição. Este fenómeno desenvolve-se na puberdade e as suas expressões patológicas aparecem geralmente entre os quinze e os vinte e cinco anos, jamais durante a infância. Como já disse, são diversos os estados patológicos que se alternam, por vezes os ritmos são regulares e outras vezes (como no caso de Sabbataï) possuem intervalos imprevisíveis. A violência e os intervalos dos altos e baixos são reveladores da gravidade da doença. Os altos exibem fases de extrema elevação mental, de um entusiasmo maravilhoso, pleno de sentimentos de bondade tão sublime que alcança o êxtase e da certeza de uma inspiração que vem do céu. Uma pessoa nesta situação vê um mundo novo e glorioso e vê-se a ele próprio como nascido de novo. Os pensamentos mais incríveis, no sentido do belo e os mais originais invadem-no podendo mesmo ter visões. Nos períodos baixos surge o abatimento, a angústia a melancolia, sentimentos de perseguição e aqui atingindo a paranóia. Pior, tornam-se factores de destruição; toda a personalidade do doente fica intacta e, em particular, os seus poderes intelectuais, os quais permanecem mas a desintegração da personalidade, por fim, acaba por se dar e todo o psiquismo é varrido por essa destruição.

Os sintomas começaram a surgir em Sabbataï teria ele vinte anos e dois anos mais tarde estavam plenamente manifestos. São numerosos os excertos circunstanciais que testemunham o ritmo cíclico da vida psíquica de Sabbataï até aos seus últimos dias de vida e a exposição clínica do seu estado está totalmente confirmado pelos registos dos seus contemporâneos. Coenen registou que, segundo os concidadãos de Sabbataï Tzevi em Esmirna, determinados estados maníacos começaram a manifestar-se no período precedente ao seu primeiro casamento. «Ele citava Isaías: 14, 14[16]: ‘Eu subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo...’ quando é alcançado por uma fé de pronunciar o versículo e num êxtase tal que ele se imagina a flutuar nos ares. Um dia aproxima-se dos seus amigos e pergunta se eles o viram levitar ao que eles lhe responderam pela negativa, replicando: ‘Vós não sois merecedores de assistir a esta visão de glória porque vocês não estavam purificados como eu.’ O sentimento de levitação é um carácter conhecido dos estados extáticos. Finalmente e no desenrolar das suas visões Sabbataï recebe a revelação que lhe afirma que ele é o messias da casa de David. Pouco tempo depois Sabbataï revela a visão do seu messianismo aos seus companheiros de estudo e de ascese e acrescentou que de ele grandes e fantásticas coisas se iriam revelar. A partir de aqui os seus concidadãos em Esmirna, tendo conhecimento da sua pretensão messiânica, notaram o aumento dos seus momentos de exaltação mas conhecendo bem a sua personalidade sabiam que um maníaco é bem susceptível de conseguir alcançar actos extraordinários. Ele pode revelar-se um génio, que o era, e avançar em estados sucessivos de inspiração com as ideias mais extraordinárias, mas também sabiam que ele podia agir de modo estranho e conduzir-se realmente como um idiota e expressar as suas manias de natureza paranóica dependendo tudo do objecto específico da sua mania, do seu talento, e das suas capacidades. Mas o diagnóstico de psicose maníaco-depressiva de per si não nos ensina nada sobre o conteúdo ou os valores dos seus pensamentos e das suas acções.

Por outro lado, o entusiasmo maníaco que arrebatava o jovem Sabbataï aos cumes vertiginosos e eufóricos de exaltação e a visão do seu próprio messianismo era objecto de um outro fenómeno aparentemente contraditório. Este jovem rabby que consagrou conscientemente a sua vida à piedade ascética e que se mortificava seis dias por semana podia, não só, transgredir a lei como agir de um modo completamente estranho (o termo hebraico dá a entender indecoroso ou impuro). As suas rupturas aos momentos de exaltação constituem aquilo que os sabbataístas apelidaram mais tarde «actos estranhos (paradoxais)». O termo hebraico, ma’assim zarim, tão significativo quão ambíguo reveste-se de um duplo sentido na tradição sabbataísta. Designa as acções que em si mesmas não são objecto de uma interdição bíblica nem duma tradição rabínica mas que parecem bizarras, estranhas, desconcertantes, ao limite do absurdo e da fantochada; mas este termo designa igualmente as verdadeiras transgressões em relação à lei religiosa judaica, seja qual for o seu grau de gravidade.

Porém, temos aqui um grande problema do ponto de vista de Religiões. Se lermos a Bíblia cuidadosamente, por exemplo, no Livro de Elias observamos que os videntes quando entravam nos seus estados de êxtase desnudavam-se completamente e entravam num estertor bastante obsceno para os olhos do comum dos mortais; por outro lado na descrição de Eliseu discípulo de Elias a situação repete-se mas atingindo o grau do inadmissível: Quando o Profeta Elias (profeta ou vidente é a mesma coisa em hebraico) sentiu que era altura de morrer decidiu ausentar-se do meio dos videntes e caminhar sozinho ao seu destino. Porém, Eliseu apercebeu-se e decidiu acompanhá-lo. Elias aceitou e depois de caminharem bastante Elias voltou-se para Eliseu e disse-lhe «fica agora aqui que eu prossigo sozinho». Mas Eliseu retorquiu «não meu mestre, deixa o teu servo acompanhar-te mais uns passos.» A história repetiu-se mais uma vez e Eliseu lá foi seguindo com Elias até que Elias chegou ao final da sua caminhada. Elias que sabia de cor e salteado o interesseirismo de Eliseu voltou-se para ele uma última vez e disse «a partir de aqui não me podes acompanhar portanto diz-me o que pretendes de mim...» «não meu senhor, eu não pretendo nada, apenas te quis acompanhar...» mas o olhar perfurante do mestre fixou-se nele de tal modo que ele teve que afirmar a sua ambição «Senhor, se depois da tua morte me pudesses conceder dez por cento dos teus poderes...» (note-se que dez quer dizer a totalidade e o dízimo é a totalidade do que tem que ser dado). Elias respondeu-lhe «não é a mim que me cabe decidir isso mas apenas Deus. Mas concedo-te um sinal: Se me vires ser levado para os céus é porque o desejo te foi concedido. Elias despede-se de Eliseu e avançou uns largos passo quando de repente uma tróica de fogo o arrebatou e Elias ao ver gritou «meu Senhor! Cavalos e cavaleiro!» E instantaneamente Eliseu sentiu os poderes em si. Desta forma inicia o regresso para o meio dos videntes e depois de muito caminhar chegou a uma encosta abrupta que começou a trepar. Quando já ia a meio uns miúdos viram-no e desataram a gritar mangando com ele «sobe careca» – porque o era –, «sobe careca!» Eliseu furioso invoca as bestas da floresta que devoraram os miúdos.

Esta história parece incrível e, lamentavelmente, especula-se na busca de simbologias e de outros materiais esotéricos que aqui não têm qualquer cabimento, mesmo porque tudo isto é comum ao ponto do universal. É conhecida a história dos Suffy estáticos que quando entram em êxtase imediatamente se despem, exteriorizam actos obscenos, bamboleiam indecorosamente o corpo... enfim, tudo o que há de anormal e de indecente eles exteriorizam. As Mães e os Pais de Santo do Candomblé que só a forma de falar em cada três palavras saltam cinco em calão para além de também terem a mesma atitude indecorosa e obscena. Enfim, desde a alta antiguidade em todo o mundo saltam relatos destes comportamentos que, como disse são, não só, universais como intemporais. É bom tomarmos nota disto antes de fazer um valor abstruso sob Sabbataï Tzevi porque tudo o que acima foi relatado como sendo uma psicose maníaco-depressiva é comum a todos os videntes ainda hoje existentes, como aos médiuns espíritas e observa-se nos mosteiros entre os monges. Quando eu aos vinte e um anos fui a um Ashram no Nepal e fui aceite para permanecer e estudar amedrontei-me com o número de monges maníaco-depressivos, que exibiam complexos de perseguição ou esquizofrenia mas depois de contactar com eles vi espelhado nos seus rostos a maior doçura, a maior compreensão e os maiores cuidados. Desapareciam por vezes vários dias e aí levantei a dúvida que ainda hoje mantenho: será que eles se ausentam para se tratarem do esforço psíquico que têm e que os conduzirá a esses estados de aparente doença psíquica? O mesmo observei no Monte Athos e nos mosteiros Capuchinhos, Jesuítas... eu sei lá, por todo o lado por onde andei.

Esta primeira parte é um aviso também para todos aqueles que se entregam a vias esotéricas por correspondência, isto é, sem alguém abalizado porque são muitos os que recheiam os manicómios de todo o mundo. Mas isto não acontece só na vida esotérica como também na vida exotérica, na vida pública e daí os excessos de stress deste planeta.

Termino por aqui esta primeira parte prometendo em breve expor a segunda mas não me perguntem quantas partes é que este material terá porque as vertentes são enormes e muito recheadas de material valiosíssimo. Porém e para constatarem o comportamento dos videntes tradicionais das Beiras vejam o meu romance Pecora Nera em FozIber fruto de cinco anos de vivência com eles comportando-me como se tal o fosse. Não aconselho a que repitam o que eu fiz, pelo menos se não estiverem orientados e bem preparados porque no meio destes uma falha significa aparecermos numa berma qualquer, ou no meio da mata abatidos por uma bala que não fala.

 

             

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Índice das ilustrações:

Fig. 1 – D. Sebastião (Sebastus), El-Rei de Portugal

Fig. 2 – Sabbataï Tzevi

Fig. 3 – Thiqun

Fig. 4 – Sabbataï Tzevi um pouco antes da sua apostasia e conversão ao muçulmanismo

Fundo: Arnold Böcklin, Guerra 1896



[1] A pronúncia de ch = kh = rr em português.

[2] Bíblia Hebraica. Esta Bíblia, normalmente denominada pelos cristãos de Antigo Testamento, é a Bíblia Sagrada para os judeus, os quais não reconhecem Jesus Cristo como messias e, portanto, tampouco os escritos sobre ele e a sua doutrina, isto é, o denominado de Novo Testamento. O nome TaNaKh é uma sigla composta apenas pelas consoantes T (de Thoráh), o Pentateuco, N (de Naviym), os livros dos Profetas e o K (h) (de Ketôviym), os Escritos ou documentos histórico-literários da Bíblia.

[3] Grande documento da Tradição Hebraica-judaica.

[4] Grande documento da Cabbala.

[5] Pirkê significa, em português, comentário.

[6] Sêfer significa livro e Bahir claridade, que podemos traduzir sem erro, O Livro do Esclarecimento.

[7] Tratado da Ciência da Cabala – D. Francisco Manuel de Melo – Editorial Estampa, Lisboa.

[8] Hh pronuncia-se rr em português.

[9] Sinagoga é o termo grego do local de reunião dos judeus na diáspora e que prossegue hoje em Israel uma vez que o judaísmo, desde a destruição do segundo Templo, não tem autorização revelativa para a construção de um novo Templo. Não obstante, o termo hebraico, é comummente Mykêitz e mais raro Knêsséth. Muito mais raro hoje porque o Knêsséth é o nome hebraico para a Assembleia da República de Israel.

[10] José filho de Jacob o pai das doze tribos de Israel. José foi o único que não formou tribo concedendo aos seus dois filhos que a formassem e daí terem surgido as duas meias tribos.

[11] Hhakham significa sábio.

[12] Rabby... o facto de um jovem ser ordenado Rabby apenas lhe diz que pode seguir esse caminho, se assim o desejar. Mas não pode actuar como tal antes de completar mais uns anos de estudos e práticas. Ym é em hebraico a forma do plural masculino.

[13] Yêshivá é o lugar retirado ou de retiro, normalmente na Sinagoga, para o estudo do Talmude.

[14] Midrash Rabba sobre Números 14: 2.

[15] Os santos (anciãos) na Grande Assembleia.

[16] Bíblia: Livro de Isaías, capítulo 14 e versículo 14.